Uma reflexão sobre liderança, sucesso e humanidade inspirada pelo filme Paixão de Escritório.
Vamos falar de filme hoje?
Daqueles água com açúcar, que escolhemos justamente para não precisar pensar muito. Mas que, por alguma razão, acabam nos fazendo refletir sobre temas muito maiores do que imaginávamos.
Recentemente assisti ao filme Paixão de Escritório, nova comédia romântica da Netflix estrelada por Jennifer Lopez no papel de Jackie Cruz. E, embora o objetivo do filme seja entreter, confesso que ele me levou a pensar profundamente sobre liderança, carreira e os limites que muitas vezes deixamos de estabelecer entre nossa vida profissional e pessoal.
A história gira em torno de Jackie Cruz, uma CEO extremamente competente, admirada pelos resultados que entrega, mas temida pela forma como conduz suas relações. Filha do fundador da empresa, ela assume a liderança em meio a olhares desconfiados e à necessidade constante de provar seu valor.
Sua rotina é completamente absorvida pelo trabalho. Não há espaço para amigos, relacionamentos, família ou vulnerabilidades. Sua identidade parece estar integralmente ligada ao cargo que ocupa.
Quantos líderes conhecemos assim?
E talvez a pergunta mais importante seja: quantas vezes nós mesmos nos aproximamos desse perfil sem perceber?
Ao longo de quase três décadas atuando em posições executivas ligadas à governança, sustentabilidade, gestão de riscos e estratégia, tive a oportunidade de conviver com profissionais brilhantes. Pessoas altamente capacitadas, inteligentes e comprometidas com os resultados de suas organizações.
Mas também vi muitos deles pagando um preço silencioso pelo sucesso.
Vivemos em uma cultura que frequentemente transforma excesso de trabalho em virtude.
A agenda lotada passa a representar relevância.
A indisponibilidade vira sinônimo de importância.
O cansaço é confundido com comprometimento.
E as jornadas excessivas acabam sendo interpretadas como demonstrações de força e dedicação.
Até que, em algum momento, percebemos que estamos entregando resultados extraordinários para as organizações, enquanto negligenciamos aspectos fundamentais da nossa própria vida.
Talvez por isso o filme tenha me tocado.
Porque, de certa forma, ele dialoga com uma parte da minha própria trajetória.
Assim como Jackie se aproxima de Daniel Blanchflower, advogado da empresa, eu também encontrei meu companheiro dentro do universo corporativo. Curiosamente, ele também era advogado de formação, embora atuasse como gestor de projetos na organização em que eu era diretora técnica e sócia.
Entre reuniões, metas, desafios e entregas, construímos uma parceria que ultrapassou os limites profissionais e se transformou em uma história de vida.
Como acontece em muitas organizações, nossa escolha despertou opiniões, questionamentos e críticas. Ainda assim, decidimos seguir em frente.
O tempo mostrou que algumas das decisões mais importantes da vida não cabem em organogramas.
Hoje, construímos uma família, compartilhamos sonhos, desafios e aprendizados. E talvez seja justamente por isso que o filme tenha encontrado eco em mim.
Porque ele nos lembra que, por trás dos cargos, dos crachás, dos títulos e das responsabilidades, existem pessoas.
Pessoas que precisam ser vistas.
Pessoas que precisam ser ouvidas.
Pessoas que precisam construir vínculos genuínos.
Na liderança contemporânea, fala-se muito sobre inteligência artificial, transformação digital, indicadores, produtividade e performance.
Tudo isso é importante.
Mas existe uma competência que continua sendo insubstituível: a capacidade humana de conexão.
Liderar não é apenas conduzir resultados.
É compreender que cada profissional possui uma história, desafios, sonhos e necessidades que não desaparecem quando atravessa a porta da empresa.
E isso vale também para os líderes.
Líderes não são máquinas.
Precisam de pausas.
Precisam de vínculos.
Precisam de propósito.
Precisam de vida fora do trabalho.
O aspecto mais interessante da transformação de Jackie não está no romance em si.
Está no momento em que ela volta a enxergar sua própria humanidade.
Ela continua sendo uma profissional competente.
Continua ambiciosa.
Continua comprometida com os resultados.
Mas passa a compreender que sucesso e vida não precisam ser adversários.
Talvez essa seja uma das maiores reflexões para todos nós.
Construir uma carreira sólida é importante.
Gerar resultados é importante.
Assumir responsabilidades e liderar organizações é importante.
Mas nada disso deveria exigir que abríssemos mão daquilo que nos torna humanos.
Ao final de uma carreira, os resultados continuarão sendo relevantes.
Mas são as relações construídas ao longo da jornada que dão significado aos resultados alcançados.
A liderança do futuro talvez não seja aquela que trabalha mais horas.
Talvez seja aquela que consegue construir resultados sustentáveis sem abrir mão das conexões, dos valores e das relações que tornam a vida verdadeiramente significativa.
E isso, definitivamente, vale mais do que qualquer cargo.
Daniela C. Pedroza